Educação financeira nas escolas reduz uso de cheque especial e rotativo do cartão, aponta pesquisa do Banco Central

Por Equipe do AJ

Essas conclusões fazem parte de um estudo de longo prazo com 25 mil estudantes do nível médio de 892 escolas públicas que receberam aulas de educação financeira quando estavam no ensino médio

Por Naiara Bertão

Um estudo feito pelo Banco Central com cerca de 25 mil estudantes do nível médio de 892 escolas públicas em seis estados brasileiros mostra que a educação financeira de jovens e crianças pode torná-las adultos mais financeiramente responsáveis. A conclusão é que as pessoas que tiveram aulas de educação financeira entre 2010 e 2011 eram 9% menos propensas a usar o cheque especial quando adultas (entre junho de 2016 e dezembro de 2019). Elas também tinham probabilidade média 6,8% menor de usar o rotativo de cartão de crédito quando comparadas ao grupo de controle.

A pesquisa acompanhou estudantes que participaram durante 16 meses de uma ação de educação financeira no âmbito da Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef) entre 2010 e 2011. Na ocasião, foram sorteadas escolas para receber o programa e escolhidas outras, semelhantes, para serem grupo de controle, que não receberiam as aulas de finanças.

Em 2017 foi então criado, pelo Comitê Nacional de Educação Financeira (Conef), um grupo de trabalho composto por membros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), do Banco Central (BC) e da Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF) para acompanharem a evolução da vida financeira daqueles 25 mil estudantes.

Para isso, usaram dados disponíveis no Banco Central, como posse de contas bancárias, a utilização do crédito de instituições financeiras, a abertura de empresas do tipo Microempreendedor Individual (MEI) e a presença de vínculo empregatício registrado na Relação Anual de Informações Sociais (Rais).

Como muitos dos estudantes que receberam as mentorias de educação financeira não tinham CPF naquela época, nem todos os participantes foram mapeados, mas o grupo conseguiu identificar uma amostra significativa de pessoas, aproximadamente 16 mil deles, 64% do total.

Conta bancária

Quando analisada a inclusão bancária dos estudantes, desde sua infância até sua vida adulta, é visível que houve um aumento considerável do número de pessoas com relacionamento com o banco. Até onde se sabe, essa é a primeira vez que são produzidas informações sobre a inclusão bancária ao longo da infância e juventude de brasileiros.

No final de 2010, quando a média de idade dos alunos era de 16,6 anos (com estudantes de 15 e 18 anos), menos de 20% deles já tinham uma conta bancária. Em dezembro de 2015, quando a média de idade estava em 21,6 anos, mais de 80% já tinham conta bancária em seu nome e CPF. No fim 2019, 96% dos estudantes já possuíam contas.

“Interessante notar que, além de a posse de conta bancária variar positivamente com o tempo, os resultados sugerem que não existem diferenças estatisticamente significantes entre os grupos de controle e de tratamento”, pontua o BC na pesquisa.

Investimentos e empreendedorismo

Além de conta bancária e das variáveis de crédito, estão ainda sendo analisadas outras variáveis que permitam traçar um quadro mais completo da vida financeira desses jovens adultos.

Segundo o estudo, até o momento não foram encontradas evidências que mostre diferenças em aplicações financeiras, como registros de posse de títulos de renda fixa – Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs). Também não há diferenças na formalização de empresas do tipo MEI.

Veja as principais conclusões:

Contudo, foi vista uma menor participação dos alunos do grupo de tratamento no mercado de trabalho formal, conforme registrado na Rais. Segundo os especialistas, uma hipótese é que a ação de educação financeira tenha incentivado os jovens a investirem em capital humano, aumentando sua propensão a cursarem o ensino superior, em vez de irem para o mercado de trabalho logo após a conclusão do ensino médio.

Mas, para investigar essa hipótese, será preciso esperar mais alguns anos para que esses estudantes voltem ao mercado de trabalho e para que sua formação esteja registrada nos dados da Rais.

No fim, a conclusão foi que:

“Este estudo apresenta evidências de que o piloto de educação financeira do ensino médio foi efetivo ao produzir resultados de longo prazo no comportamento financeiro dos jovens, em especial no que diz respeito à utilização de modalidades caras de crédito”, diz o BC.

Além disso, aponta duas implicações do resultado para estudos internacionais: por um lado, fica demonstrado que é possível produzir resultados relevantes e duradouros de comportamento com o ensino de educação financeira; por outro, a avaliação de políticas que considera apenas o curto prazo pode levar a conclusões muito diferentes da avaliação que políticas de longo prazo, implicando a necessidade de um monitoramento continuado das políticas públicas.